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Banco Master: golpe revela falhas sistêmicas em regulação e controle do setor financeiro..

Para especialistas, Fundo Garantidor foi usado como ‘garantia’ de títulos podres e agências de avaliação não funcionaram.


Por Caio de Freitas e Wanessa Celina – Agência Pública

As autoridades ainda investigam a extensão e quem se envolveu nas fraudes no grupo Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, estimadas em ao menos R$12 bilhões, segundo o diretor da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Mas já se sabe quem vai pagar a conta: o Fundo Garantidor de Crédito, uma entidade independente que mantém a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional, dando “garantia de créditos contra instituições” bancárias no país.



Mais conhecido por sua sigla, o FGC foi criado em novembro de 1995 e, pelas regras atuais, cobre perdas de no máximo R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em depósitos, ou investimentos que estejam em contas correntes, poupanças e aplicações variadas, como CDB, LCI e LCA nas instituições que participam do Fundo.


No caso do banco Master, o que deveria servir como garantia pode ter se voltado contra o próprio FGC graças a brechas regulatórias e a más práticas de agentes no sistema financeiro. É o que avalia a advogada e doutora em Direito pela PUC-SP Lucía Ferrés Zakia, que pesquisa a regulação do mercado mobiliário e de capitais.


O mercado sabia que um banco pequeno como o Master prometer rendimentos de 140% em certas aplicações era irreal, sinal de títulos podres, mas porque indicava esse tipo de produto? Porque havia um ‘seguro’ – o FGC, que virou ‘lastro’ para a venda, sem limites, de produtos financeiros ruins, contanto que ficassem dentro do teto do FGC”, disse Ferrés à Agência Pública.


Títulos podres são ativos ou operações financeiras de alto risco de inadimplência, emitidos, na maioria das vezes, por empresas com classificação de crédito baixa, ou em dificuldades financeiras, ou recuperação judicial. Por apresentarem alto risco, costumam oferecer juros altos e se apresentam como empréstimos, financiamentos ou aplicações.


Para a pesquisadora, as fraudes bilionárias no Master são fruto de problemas sistêmicos na regulação do mercado, onde “consultores, assessores de investimento, corretoras e muitos outros descumprem seus deveres fiduciários de avaliar, de fato, se produtos financeiros são rígidos ou não, se são confiáveis ou não”.


As pessoas vendem um produto podre, mas com garantia do FGC, que foi criado para mitigar riscos sistêmicos, mas virou uma espécie de seguro para vender produtos podres […] grande parte da fraude no Master foi um golpe contra o FGC”, afirmou Ferrés.


As digitais de auditorias e agências de avaliação de risco no caso Master

Também ouvido pela Pública, o ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial Carlos Primo Braga destacou o fato do grupo Master ter obtido avaliações positivas de auditorias fiscais e agências de avaliação respeitadas no mercado financeiro.


" Sinceramente não sei como foi o diálogo entre as agências e auditorias com o Master, mas certamente elas tiveram acesso não apenas aos balanços, como também houve diálogos com o banco. Mas, sinceramente, não tenho dúvida que elas devem ter tido – ou ainda estão tendo – reuniões internas para discutir como vão explicar suas avaliações, até porque isso traz impactos sobre a imagem delas próprias”, disse Braga, que também é professor associado na Fundação Dom Cabral.


ex-diretor do Banco Mundial ressaltou ainda que a intervenção do FGC no banco Master trará consequências relevantes aos cofres do Fundo, mas não abalará por completo o sistema financeiro.



" Do ponto de vista do sistema financeiro, o Master é uma instituição pequena, com menos de 1% dos ativos totais nas instituições em funcionamento, um dos motivos pelos quais sua liquidação não traz um risco sistêmico”, disse.



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